ARQUIVOS DA TAG "Drummond"

30.10.2014
ENTREVISTANDO DRUMMOND

Para comemorar os 112 anos de Carlos Drummond de Andrade, a Estamparia Literária, que tem vários produtos inspirados nos óculos do famoso poeta e cronista, foi cutucar as lembranças de Vivian Wyler, nossa consultora de branding e ex-repórter de o Jornal do Brasil, onde era especializada em literatura e música.

Em setembro de 1984, ela nem acreditou quando foi escolhida para fazer a entrevista de despedida de Carlos Drummond de Andrade da sua função de cronista do Jornal do Brasil, “obrigação” que  ele desempenhou por 64 anos com um lirismo e um engajamento humano só seus :

– Estou desocupando o posto antes que alguém grite: Chega! Fora!

O poeta era famoso por falar raramente de si, e foi temerosa que ela chegou ao apartamento da rua Conselheiro Lafayette. Dona Dolores, a mulher de Drummond, tinha programado uma dedetização de baratas para aquele dia, então a entrevista já começou com um clima leve, cômico, até, uma entrevista deambulante, mudando de cômodo para cômodo, quarto, cozinha, banheiro, para fugir ao cheiro de inseticida, e terminando na rua, na calçada.

Ecologista até a raiz da alma, “mas não para preservar a natureza para o homem e sim para ela mesma”, herança da vida na fazenda, na infância, quando ia ler velhos jornais dependurado em uma jabuticabeira, Drummond confessou, cabisbaixo, o asco pelo inseto cascudo, segundo ele, uma de suas várias aversões. Outras, confessas: turismo, dinheiro, religião.

Para o poeta e cronista, na entrevista que saiu no Caderno B do dia 29 daquele mês e ano, a partir dali a crônica seria substituída pela simples conversa entre amigos, acalentada numa vida de hábitos bem regrados. Sono tardio – em torno de umas 2 h da manhã -, depois de assistir a filmes preto e branco, “os antigos”, seus favoritos. Rotina diurna de apreciar os detalhes à sua volta. Abandonar a crônica, disse ele, era consumar sua rejeição às obrigações que considerava antinaturais, a prova que os seres humanos não aprenderam com os animais a “simplesmente seguir o curso da existência”. E uma forma de se acostumar com a “decrepitude”.

– Estou me despedindo da vida. Não tenho a ilusão de que vou durar para sempre. E não quero me ver arrastando uma perna, sendo puxado por uma enfermeira, voltando à infância, mas sem os prazeres da infância. Largar a crônica é uma maneira de enfrentar a velhice, de aceitar a ideia do fim. E descansar.

A matéria saiu no sábado, com uma ilustração inspirada de Bruno Liberati. Na manhã daquele dia, cedinho, o telefone tocou na casa da Vivian e o marido dela, Inácio, atendeu.

– É um colega de redação, o Carlos.

– Eu não tenho nenhum colega Carlos.

– Mas foi isso que ele disse.

Ela foi atender. Era o poeta. Tinha conseguido, não se sabe como, o telefone dela, e ligado para dizer que tinha gostado da matéria.

– Obrigado, minha colega- disse, com a fala mansa e a simplicidade características.

Ela sentou no chão, ao lado do telefone. E chorou.