CATEGORIA "Papelaria"

17.02.2017
Desventuras em série – Sobre a forma de se contar uma história

“Circulando” é uma expressão usada por pessoas incapazes da cortesia de dizer alguma coisa mais polida, como  “se você não precisa de mais nada, tenho de ir”, ou “sinto muito, mas vou ter de lhe pedir que vá embora, por favor”, ou até mesmo “desculpe, mas creio que você confundiu a minha casa com a sua, e os meus mais valiosos pertences com os seus, e devo solicitar-lhe que me devolva os itens em causa, e saia da minha casa, depois de me desamarrar desta cadeira, pois não consigo fazer isso sozinho, se não for muito incômodo.” (SNICKET, Lemony. O penúltimo perigo – Desventuras em Série.)

Se você gosta de um humor semelhante ao da citação acima, devo lhe dizer que você irá gostar bastante de Desventuras em Série. Há quem ame e há quem odeie. Li o primeiro livro em 2013 e posso me considerar pertencente ao grupo um. Neste post vou compartilhar os motivo que me fazem adorar a série.

Para quem não conhece, Desventuras em Série é uma coleção de treze livros escritos por Lemony Snicket (pseudônimo do escritor e cineasta americano Daniel Handler). Trata-se da história de três órfãos que perdem seus pais num incêndio, e se veem nas mãos de tutores inadequados e um vilão que está atrás da fortuna que seus pais deixaram.

Por que faço parte do grupo que gosta da série? Porque o autor chama atenção não apenas para história, mas para forma como ele a conta, ou seja, os recursos não escritos que ele utiliza. Snicket não se restringe apenas a escolher palavras para expressar uma ideia. Como designer, aprecio muito a forma como ele brinca com as formas não escritas de se narrar algo. Todo o livro, desde a capa, folha de rosto, ficha catalográfica, foi muito bem planejado. Há uma sintonia muito grande entre escritor e designer gráfico. Citarei alguns exemplos para melhor exemplificar o que estou querendo dizer.

Certo dia, lendo um dos livros dessa série, ao ler a ficha catalográfica ( pois é, eu leio, coisas de designer), me deparo com algo bastante inusitado que me fez rir, pois me pegou de surpresa. No emaranhado de letras, alguns comentários destoavam do que esperamos encontrar na última página de um livro:

Em outra edição, o autor fala de mensagens codificadas, na qual a carta fica com as letras invertidas e, para a minha surpresa, a próxima página estava completamente espelhada! Me fazendo parar a leitura e pegar um espelho para decifrar o que estava escrito naquela parte. Entende  como ele brinca com o leitor? Ele não apenas diz algo que você entende, ele faz você experimentar o que ele diz. Num outro momento, falando sobre dejavú, ele repete o mesmo parágrafo no capítulo seguinte, fazendo você vivenciar essa sensação de repetição. Ler um livro de Lemony Snicket é isso. Não apenas ler, mas  de alguma forma sentir o que está sendo dito. Ele brinca com todos os recursos possíveis para passar uma mensagem; Se ele quer ser enfadonho para alcançar um ponto com você,  não tenha dúvida que ele vai conseguir.

No livro O elevador Ersatz, encontramos outro recurso não escrito para passar uma ideia. O narrador nos fala de um poço de elevador extremamente escuro “[…] às vezes palavras não são o bastante. Existem algumas circunstâncias tão completamente deploráveis que não consigo descrevê-las em sentenças ou parágrafos.” Ao virar a página, lá estava o poço escuro.

Algo que eu adorava sempre que pegava o próximo livro da série era a dedicatória que Snicket  fazia à sua mulher morta, sempre de um jeito cômico e  ao mesmo tempo dramático. Uma seleção das melhores, que sempre se iniciam com “Para Beatrice”: “…querida, adorada, morta”; “…Meu amor por você viverá para sempre. Você não teve a mesma sorte.”, “…você estará para sempre no meu coração, na minha memória e no seu túmulo.”, “…Nosso amor partiu meu coração, e parou o seu.”, “Quando estávamos juntos, eu ficava sem fôlego. Agora, foi você quem ficou.”, “ Ninguém conseguiu extinguir o fogo do nosso amor, nem o da sua casa.”

No entanto, é possível notar uma crítica social nos livros, principalmente sobre as insanidades da natureza humana. Embora os livros sejam bastante melodramáticos e com devaneios, eles retratam essa “ameaça” de um mundo onde todos são muito adultos. As crianças frequentemente se veem silenciadas, mesmo estando com a razão, por apenas serem crianças, por não terem voz naquela sociedade, onde o adulto está sempre certo, pelo simples fato de ser adulto. A série conseguiu transparecer bastante disso, essa “revolta” que temos junto com os protagonistas, que sempre ficam injustiçados por ninguém os levarem a sério.

Por fim, para quem gosta de leituras onde a forma como se escreve é apreciada tanto quanto o que se escreve, onde tragédia, drama e humor andam juntos e, o mais importante, citações que não acabam mais, seu lugar é aqui! Nesse universo de desventuras. Em janeiro estreou a série produzida pela Netflix, eles foram bem fiéis aos livros, vale a pena assistir caso os livros te agradem. Até porque, não custa tentar, não é? Afinal, “arriscar-se é como tomar banho, pode acabar com você se sentindo confortável e aquecido, mas pode ser que algo terrível esteja à sua espreita e você só descubra o que é quando não houver nada a fazer, a não ser berrar e agarrar-se a um patinho de borracha.” (SNICKET, Lemony. O escorregador de gelo – Desventuras em Série).

 

Alana é carioca desde sempre, tem 22 anos, estudante de design na ESDI /UERJ e uma apaixonada por histórias, do tipo que  lê em qualquer lugar. É campeã em dobrar metas de leitura quando muita gente ainda nem saiu do primeiro livro. Colabora com o blog da Estamparia Literária uma vez por mês.

11.01.2017
Sobre a paixão pela leitura – por Alana Moreira

Se alguém te perguntasse hoje o motivo de você gostar tanto de ler (caso você seja uma pessoa que ame ler tanto quanto eu), qual seria sua resposta?

Você conseguiria exprimir em palavras o sentimento que tem ao terminar de ler um livro que ama muito? O que você sente ao terminar aquela série de livros do seu autor preferido?

Estive pensando sobre isso e resolvi compartilhar as minhas respostas. Leio livros de gêneros completamente diversos e cada um deles parece me atingir de uma forma completamente diferente e singular.

Qual o significado da leitura para mim? Ela é uma forma de estar em diversos lugares, com pessoas diferentes, sem sair do lugar. Tem muitos livros que você lê e ama a história, mas é aquilo, você está o tempo todo consciente de que é uma história, você sabe que está segurando um livro, que está olhando para palavras num papel.

Entretanto, existem alguns livros específicos, que você começa a ler e vai suavemente se desconectando do mundo. As palavras formadas na sua frente na folha de papel vão sumindo, sendo substituídas por sons, muito reais. Seus pés não estão mais ali no trem indo para a faculdade, as pessoas a sua volta vão sumindo, os sons de suas vozes vão se abafando. Quando você se dá conta, você está do lado do seu personagem, ele está te contando o que está acontecendo naquele exato momento na vida dele, você presencia os acontecimentos, a angústia de estar no meio de um campo de batalha, a felicidade de estar ali no momento de vitória, rir das piadas contadas. Cada dia seu é uma viagem breve ao mundo deles, onde você tem a oportunidade de participar um pouco da vida deles.

E cada livro dessa série é como um passaporte para um mundo paralelo, tão real quanto o seu agora, onde você vai acompanhando o seu personagem, que agora é seu amigo, afinal, ele te conta tudo, até o que ele mesmo não define em voz alta para si mesmo. Ele vai virando seu amigo de anos, a cada acontecimento e realização (quando você abriu o livro na faculdade) você sorri, porque acompanhou ele desde o início. Depois de uns anos, seu amigo vai amadurecendo, alcançando seu objetivo e finalmente chegando a conclusão (feliz ou não) de sua jornada.

Então os sons voltam. As pessoas aparecem de novo ao seu redor, você volta a sentir seus pés no chão do vagão. E o seu amigo, guardado em sua mochila, volta para casa com você. Ele é colocado carinhosamente na sua estante, junto com o restante da sua história.

De vez em quando você passa por eles e lembra com uma nostalgia e saudade enorme, dos anos vividos juntos, dos longos momentos de madrugada, apenas com um abajur, onde o silêncio da noite, te ajudava a escorregar para esse outro mundo, com um frio na barriga. Onde seu amigo já te aguardava para seguir junto, nesse outro mundo.

 

Alana é carioca desde sempre, tem 22 anos, estudante de design na ESDI /UERJ e uma apaixonada por histórias, do tipo que  lê em qualquer lugar. É campeã em dobrar metas de leitura quando muita gente ainda nem saiu do primeiro livro. Colabora com o blog da Estamparia Literária uma vez por mês.

29.07.2016
Se você gostou de Stranger Things, vai adorar esses livros
Se você gostou de Stranger Things, a série super cult do Netflix, a Estamparia Literária tem 10 dicas de livros para você:
1. A menina que tinha dons, M.R. Carey (editora Rocco).
2. It- A coisa, Stephen King (editora Objetiva)
3. O orfanato da srta Peregrine para crianças peculiares, Ransom Riggs (editora Leya)
4. Uma dobra no tempo, Madeleine l’Engle (editora Rocco)
5. A cidade inteira dorme (e outros contos), Ray Bradbury ( editora Globo).
6. O homem que caiu na Terra, Walter Terry (Darkside Books)
7. Watchmen – edição definitiva, Alan Moore & Dave Gibbons (Panini)
8. A invenção de Hugo Cabret, Brian Selznick (SM Editora)
9. Realidades adaptadas, Philip K.Dick (Aleph)
10. O menino que desenhava monstros, Keith Donohue (Darkside Books)
Em todos eles, essa mistura incrível de cotidiano, mesquinho até, dons sobrenaturais e adultos e crianças sensíveis ao inusitado. Há paranormais, dobras no espaço-tempo, seres de inteligência superior, complôs do governo americano, futuro, pacatas cidades americanas e fantasia que pode se tornar realidade. Todos eles, mesmo os mais recentes, são clássicos do gênero, cada um a seu modo.
Agora é você trancar a porta e escolher um lugar sossegado para ler. Mas deixe algumas luzes acesas, por via das dúvidas.
18.05.2015
Os óculos do Drummond

 

Durante os dias 25 e 26 de abril, a Estamparia Literária participou do evento Lapalê, um festival literário que aconteceu nos Arcos da Lapa para comemorar os 100 anos desse bairro que é um marco na cultura e na boêmia carioca. Foi um final de semana de muita alegria e troca com o público, com outras editoras e com os participantes. No vai e vem da nossa barraca, recebemos a visita do Leo Santanna, nada mais nada menos que o escultor da estátua do Drummond no Posto 6, aquela famosa por ter os óculos roubados e ser o segundo monumento mais visitado no Rio de Janeiro, ficando atrás apenas para o Cristo Redentor. Leo foi presenteado pela sua amiga Chris Lima com um marcador de óculos do próprio, posou para foto e ainda respondeu quando perguntamos o que ele achava desse fascínio das pessoas de roubarem os óculos do poeta:

“Eu procuro sempre entender porque as pessoas roubam os óculos do Drummond. De que ponto de vista essas pessoas tomam essa atitude? Mas aí eu penso que ver a vida sob a ótica do poeta é um privilégio, e entendo tudo”.Leo Santanna 

 

A Estamparia Literária adorou o encontro e ficou feliz de saber que, de alguma forma, possibilita que mais pessoas possam ver sob a ótica do poeta. Sem depredar monumentos!

 

Saiba Mais:
Leo Santanna: www.leosantana.art.br

Chris Lima: www.evolutivaestudio.com.br

Lapalê: www.lapalefestival.com.br